Final de ano para engordar os bolsos


Trabalhadores aproveitam a demanda para aumentar o orçamento na época das festas

Por Heloisa Carneiro e Marcel Buono

Com o Natal, lojas do Shopping Paulista abrem espaço para trabalhadores sazonais. Foto: Divulgação

O dia de Valéria Bernardo começa cedo. Acordar quase junto com o sol já faz parte dessa paulistana de 24 anos, que atravessa a cidade de segunda a domingo para chegar a seu trabalho na região centro-sul. Moradora do Tatuapé, ela opta, há cinco anos, por uma alternativa de renda bem comum nessa época do ano: vendedora extra de Natal.

A carga horária chega a passar de 10 horas diárias, com folgas opcionais semana sim, semana não. Para quem vive de comissão em uma loja de sapatos no Shopping Pátio Paulista, esses dias de descanso valem dinheiro. “Quando não vendo muito em um dia, vejo se dá pra abrir mão de um domingo de folga e venho trabalhar para tentar compensar”, conta.

Sem formação acadêmica – completou apenas o curso técnico em contabilidade -, Valéria trabalha a maior parte do ano em bicos como secretária. O dinheiro ganho de fevereiro a novembro muitas vezes nem se compara ao que é possível fazer na época de festas. “Tem ano que dá para tirar quase o triplo do que faço em 2 meses em um escritório”, diz a vendedora, fumando durante um dos  intervalos do seu expediente. Mas então por que não viver como vendedora? “É muito cansativo. Dependendo da loja, às vezes nem vale a pena, acaba sendo muito trabalho pra pouca comissão”, completou.

Essa prática é muito comum na época natalina, conta o economista Gustavo Yoshizaki. “A oferta de empregos é proporcional à demanda de compras do mercado consumidor. É a época do ano que mais se compra e vende, junto com as outras datas comemorativas, como dia das mães, dos pais, dos namorados, entre outras”, explica. Pessoas como Valéria, segundo ele, ajudam a mover a economia de consumo que se forma com essas celebrações que são fortemente comerciais.

A loja em frente a que Valéria trabalha, por exemplo, tem o dobro de “extras” – como são chamados os vendedores contratados por curtos períodos. Ao todo, são cinco novos funcionários trabalhando para vender mais. A principal diferença entre estes e os efetivados é o salário fixo mensal, mas que nem sempre é garantido. Depende do contrato entre o funcionário e a loja.

Anna Beatriz Xavier, de 19 anos, está em sua segunda temporada como temporária em uma loja de roupas femininas do mesmo shopping. Não ganha um salário fixo, só a comissão, mas está aproveitando as férias da faculdade de Publicidade e Propaganda que cursa no Mackenzie, na qual acaba de completar o primeiro ano, para juntar dinheiro. Anna conta que o que ganhou no ano passado ajudou a bancar um mochilão pela América do Sul com as amigas. “Cobriu quase todos os gastos da viagem”, conta. “Podia ter sido mais, então esse ano já percebi que é importante dobrar (quando os vendedores duplicam a jornada de trabalho) para ganhar mais. Como dependemos de cada venda que fazemos, quanto mais tempo passarmos na loja, melhor”, revelou.

Nenhuma das duas tem noção de quantas pessoas atendem por dia. São pessoas que entram, mas não compram – que nas gírias das lojas são conhecidas como “caroços” – e as que realmente acabam ajudando na renda dessas meninas. Uma coisa é certa: o volume é enorme. De 2009 para 2010, segundo a administração do Shopping Pátio Paulista, as vendas aumentaram 7,4%, e a quantidade média de pessoas que passaram no período de um mês antes do Natal duplicou. Tanto na região da Paulista, onde fica o centro comercial, que possui muitos outros comércios, quanto nos outros bairros da cidade, o final do ano é um caos, mas um caos bem-vindo aos bolsos de quem vende.