A origem bíblica da homofobia


O convívio com homossexuais em famílias muito religiosas é mais complexa do que nos demais segmentos sociais

Por Déborah de Deus

Os conflitos sociais existem na humanidade desde sempre, mas começaram a ser estudados no século XIX. A busca constante pelo poder fez com que, ao longo dos anos, classes diferentes lutassem pelo mesmo espaço e uma sociedade. Para conseguirem hegemonia e ter seu valor reconhecido, pequenos grupos, que cresceram com a adesão de pessoas que acreditavam na causa, passaram a reivindicar seus direitos. Foi desta inciativa que surgiram muitos movimentos sociais na história, como por exemplo, o movimento feminista e o movimento negro.

Séculos separam o mundo desses acontecimentos, mas mesmo na pós-modernidade ainda é possível encontrar “ruídos” no processo de interação social. Tudo o que é diferente precisa ser aceito pela maioria, mas esse processo é penoso e, em situações extremas, custam a vida das pessoas. Há alguns anos o movimento homossexual vem ganhando espaço na mídia, são notícias de passeatas, partido políticos que passam a lutar pela causa, e também casos de agressão e pré-conceito.

Dentro de casa a aceitação também não é fácil. “Mãe, eu sou gay e pronto”, F. S., 26 anos. O dia em que essas palavras saíram da boca de F.S., o chão da família virou um abismo. Brigas e discussões foram frutos de um preconceito baseado em passagens bíblicas. A família é evangélica, a mãe e o pai são pastores, a irmã comparece aos cultos, faz parte dos projetos de ajuda à comunidade, vão à igreja, em média, três vezes por semana. “Isso é coisa do demônio”, “Você está cometendo um pecado horrível, vai queimar no inferno”, “O homem foi feito para a mulher e vice-versa” e “Você vai arder como Sodoma ardeu no passado”, são apenas algumas das justificativas para que o filho desista da “ideia” de ser homossexual.

Estes casos se encaixam no conceito do filósofo indiano, Bhabha, teórico hindo-britânico, dos mais respeitados pensadores do culturalismo e da pós-modernidade, que faz um estudo sobre os entre-lugares, espaços de choque entre diferentes culturas, produzidos pelo aumento da proximidade, tanto física quanto de comunicação, entre pessoas de diferentes classes sociais e de diferentes partes do mundo ocorrido nas duas últimas décadas. O convívio entre os homossexuais, religiosos e protestantes, por exemplo, é complexo e passa por problemas estruturais, pois no âmago destas religiões estão os conceitos da bíblia, que abomina a relação amorosa entre pessoas do mesmo sexo. Mas para haver uma mudança de mentalidade é preciso mudar o conhecimento da vida humana, e caracteriza uma nova ramificação da sociedade.

Um dos argumentos mais fortes apontado na bíblica judaico-cristã está na passagem que fala sobre a destruição das cidades Sodoma e Gomorra, no velho testamento, livro de Genesis 19:5-9: “E chamaram a Ló, e disseram-lhe: Onde estão os homens que a ti vieram nesta noite? Traze-os fora a nós, para que os conheçamos.
Então saiu Ló a eles à porta, e fechou a porta atrás de si, e disse:
Meus irmãos, rogo-vos que não façais mal; Eis aqui, duas filhas tenho, que ainda não conheceram homens; fora vo-las trarei, e fareis delas como bom for aos vossos olhos; somente nada façais a estes homens, porque por isso vieram à sombra do meu telhado.
Eles, porém, disseram: Sai daí.
Disseram mais: Como estrangeiro este indivíduo veio aqui habitar, e quereria ser juiz em tudo? Agora te faremos mais mal a ti do que a eles.
E arremessaram-se sobre o homem, sobre Ló, e aproximaram-se para arrombar a porta”.

A ideia do homossexualismo está implícita no fato de Ló oferecer as filhas virgens em troca dos estrangeiros e na referência ao “não façais mal”. Mas é importante lembrar que a destruição de ambas as cidades não está ligado diretamente a esta prática. Os pecados pelos quais foram julgados os sodomitas, citados em diferentes partes na bíblia era: falsidade, adultério, apoio aos malfeitores, Jeremias 23:14; Omissão perante as necessidades dos pobres mesmo tendo condições de ajudar, soberba e prática de abominações, Ezequiel 16:49-50; Dissolução, 1ª Pedro 2:7-8; Fornicação, Judas 1:7. Em nenhum momento é especificado o homossexualismo.

É preciso reconhecer que o movimento homossexual é uma manifestação político-sócio-cultural. No Brasil, na década de 40 já era possível perceber alguns grupos gays, mas que não tinham muita atenção da mídia e da sociedade. A partir da abertura política, na década de 70, houve um crescimento de manifestações. Já em 2011, o foco dessa discussão é maior e gira em torno de aspectos sociais mais fortes, como a constituição de uma família – adoção, casamento, herança, etc. Constantemente surgi na mídia notícias sobre conquistas e ações contra essa categoria da população. No mundo, países já aceitam algumas reivindicações feitas pelos homossexuais, mas ainda há registros de pré-conceitos, em todas as áreas, inclusive dentro de casa.

Sendo assim, é correto fazer o julgamento de condenação? A interpretação da bíblia depende do grau de conhecimento de quem está lendo. É mais fácil basear fatos inaceitáveis, para alguns, usando os princípios de outros. Não podemos esquecer que a bíblia é um grande livro, repleto de passagens e histórias que se encaixam na vida das pessoas de acordo com o que estão vivendo. E não podemos deixar de lado o fato que a bíblia foi escrita e reescrita várias vezes e que alguns conceitos não se encaixam na sociedade atual. A mãe, usada no exemplo acima, é pastora e se diz conhecedora da palavra do Senhor, mas a não aceitação é tão grande que ela esquece que na mesma bíblia em Romanos 2:1 diz: “Portanto, você, que julga os outros é indesculpável; pois está condenando a si mesmo naquilo em que julga”.

Para Bhabha, “os valores ainda pautam o modo de vida em grande parte do mundo, mas alguns deles estão começando a ser deixados de lado. Pelo ideal moderno, tudo tem que ser científico, metrificado e padronizado, fronteiras são fixas e claras, assim como hierarquias e
modos de organização e estruturação das sociedades”. Isto é uma das justificativas de aceitação do movimento homossexual . Como todos os vivem na mesma estrutura, mas de formas diferentes, há um choque de culturas que é contornado da maneira que convém a cada sociedade, e algumas vezes esse processo não é eficiente.