Como serão as bancas de jornal no futuro?


Pesquisa inédita demonstra que bancas estão se transformando em lojas de conveniência

Por Mário Alves dos Santos Jr

Foto: Mário Sant

Atendente Nathalie mostra variedade de produtos da banca de jornal

Por favor, onde fica a rua Carlos Sampaio? Você tem Marlboro? Quanto custa este chocolate? Com certeza, você já se pegou fazendo alguma dessas perguntas. É cada vez mais frequente a demanda por esses produtos e serviços, mas nas bancas de jornais e revistas. Pesquisa inédita realizada nas principais capitais entre 2009 e 2010 pela empresa ToolBoxTM, consultoria especializada em ponto de venda (PDV), demonstra que as bancas estão se tornando cada vez mais um canal de conveniência. De acordo com informação publicada pelo Sindicato dos Vendedores de Revistas e Jornais de São Paulo (Sindjorsp), “foram pesquisados 3.352 estabelecimentos de um total de 16 mil bancas atendidas pela principal distribuidora do país, a Dinap. O estudo mostra que 68% das bancas visitadas comercializam gomas e confeitos, 52% bebidas refrigeradas enquanto que o serviço de fotocópia representa 12%”.

Nathalie Mendonça de Menezes, vendedora, trabalha há 4 anos na Banca Top Center, 810. Reclama que as vendas de revistas e jornais está com demanda reprimida, principalmente os jornais.  O “pessoal fala que jornal do dia é notícia velha, pois um dia antes já tiveram acesso pela internet. A não ser aquela pessoa que tem o hábito mesmo de pegar no papel ou quer para algum trabalho específico”, comenta Nathalie. O produto mais vendido é o cigarro, além de doces e trufas.

Desde 1989 no ramo, o atendente Almir José de Souza Teixeira trabalha há 5 anos na Banca Carlos Sampaio, 369. Segundo ele,  o que mais prejudicou o negócio foram as assinaturas, o acesso fácil e gratuito ao conteúdo na internet e a falta de apoio das Editoras nas campanhas promocionais. “Quando lançam um produto eles querem que a banca faça propaganda porque é lançamento, mas quando chega ao conhecimento do leitor, simplesmente tiram da banca e passam mais barato para o consumidor. Para a gente é difícil”, protesta Almir.  

De acordo com Ricardo Lourenço do Carmo, presidente do Sindjorsp, “nos últimos 5 anos as vendas de revistas e jornais nestes pontos de venda (PDVs) caíram 20% em todo Estado de São Paulo. Tínhamos 5 mil bancas e mais de 1 mil fecharam. Elas precisam se modernizar. Deixar de ser jornaleiro para ser empreendedor, buscar novas ferramentas. As vendas de jornais e revistas representam menos de 50% do faturamento atualmente. Quem só depende de jornal e revista não consegue sobreviver”.

Foto: Mário Sant

Gerente Marco atende clientes que buscam bier bong

Almir Teixeira confirma a posição do presidente do Sindjorsp, Ricardo do Carmo. Ele conta que a situação de vendas dos jornais ainda está mais crítica. “O leitor pensa duas vezes antes de pagar 3 reais em um jornal para ler uma reportagem. Ele prefere buscar de graça nos sites. “A gente está se virando com balinhas, doces, chips, pilhas e os cigarros são disparadamente os produtos mais vendidos”.

Marcos Tadeu Cândido, gerente da Banca Gazeta, 900,  está no ramo há mais de 18 anos. Ele conta que há 15 anos seu estabelecimento vendia, aos fins de semana, entre 300 e 500 jornais de O Estado de São Paulo.  Hoje, quando muito, vende 50 exemplares.

Atualmente, para ser proprietário de uma banca é preciso comprar o ponto de venda, pagando um imposto anual para a prefeitura de São Paulo. De acordo com a localização da banca, o tributo sofre uma variação muito grande. Para se ter um ideia, a taxa anual, cobrada na Banca Carlos Sampaio, está na faixa de 2.500 reais. Seu faturamento bruto mensal gira em torno de 20 mil. Sendo que o fim de semana é bastante fraco, pois a região é comercial, esclarece Almir. Curioso que a banca localiza-se a apenas 10 m da Av. Paulista. Ele diz que a média dos impostos cobrados na principal via está entre 16 mil e 30 mil reais anualmente.

Foto: Mário Sant

Bancas investem em modernidade para atrair público

Marcos Cândido segue os conselhos empreendedores do presidente do Sindjorsp.  Para compensar as perdas, eles estão procurando se reinventar, valorizando o atendimento de qualidade. “Se a Prefeitura permitir seremos, no futuro, loja de conveniência”, dispara. O jornaleiro procura vender tudo o que é permitido e até produtos que geram uma certa controvérsia. É o caso do Bier Bong, equipamento que está na moda entre os jovens que apreciam cerveja, vendido com exclusividade na Banca Gazeta a preço entre 20 reais a 55 reais. A banca funciona até às 23 horas. “Não compensa ser 24h”, diz ele.

O gerente da banca Gazeta conta que uma banca não pode receber mais de 3 multas, pois assim correrá o risco de perder o direito de usufruto do local. Os jornaleiros contam com uma espécie de política da boa vizinhança – quando há uma relação de amizade -, embora a concorrência estimula muito mais a falta de solidariedade.  “Caso haja fiscalização, um comunica ao outro para evitar o flagrante”, comenta. Em São Paulo cada proprietário pode adquirir apenas uma banca. Para driblar a lei, muitos acabam tendo outros pontos, mas em nome de parentes. Mesmo com todas as dificuldades, parece que ainda é interessante ser proprietário.